segunda-feira, 4 de junho de 2012

Do meu nariz

o céu paulistano
estava quase não cedendo
deixando o sol imitar
aquele estilo portenho de ser

hoje, no entanto
acordou sedento
de chover chovendo.

ele,
sem titubear,
declarou:
se não chovo, ao menos descanso.
(e bem se sabe: há de se escurecer para descansar)

O escuro do quarto
O escuro dos olhos
O escuro do silêncio.

As nuvens, assim, se achegam
para choverem entre si
e lavarem todos
sem colocar,
no entanto,
na corredeira
o peso que carrega
 cada coração.

o Oceano, assim,
flutua
sem Aquele peso
do que ainda não se vê
inteiro,
mas em partes
pesadas de tanto caçar

 o inter(des)ruptor.


Nana meu filho,
enquanto a chuva cai,
porque enquanto existe poça
nunca haverá o fundo do poço.

Descansa, meu filho
enquanto a chuva cai,
porque o escuro
nem sempre vem
com a escuridão.

Feche os olhos, meu filho
porque quando fores
 -o Oceano, -
serás filho e mãe
pai e irmã...
do mundo que deveras flutua
voando entre
e em seus dedos

bem embaixo do falso desejo.

bem aqui,
bem ali,
hoje e sempre,
fazendo a dança sensual
que parece exigir sempre
ser bem embaixo
do seu nariz.



domingo, 25 de março de 2012

Fechando o verão.

Março saiu correndo feito uma criança assustada.
Bem sei, o mês três!
Só poderia ser assim: querendo juntar tudo misturando
E deixar uma ligeira impressão: uma coisa só e muito mais, querida!

Águas e águas,
(de Março, del mondo!)
Merci...
Por correr assim, depressa, e olharem pra mim:
Tchau, tchau...
Beijo pra quem fica.

Ah o ano ensaia,
para sair em desparada...
Enquanto fico aqui,
debaixo da sombra fresca
da árvore que me dá as mãos,
em raíz.

Corra meu bem, corram.
O tempo é meu amigo,
Ele, risonho, aperta minha barriga e gargalha:
- você sabe que estou brincando , né?!


Sim! Mas amo: o ritual -
diário
anual
constante!
E assim, boto as rédeas...
capto o instante pelo ventre:
sinto o significado
sinto o intimo universal.

Para descartar,
delicadamente à música
o tic-tac do corpo
da máquina:

eu danço,
com o pé sujo de mundo
e a cabeça sem saber
se voa
ou farfalha...

segunda-feira, 12 de março de 2012

Só cabe no verso de Drummond

Esse tal uso da reticência me machuca.
Tão poética
e reduzida, assim,
à faticidade (ou fatalidade)
de deixar o canal
aberto:

Fica assim,
um quase tudo bem pequenino
ou olá preguiçoso!
um vácuo amputado no silêncio apoético.

A reticência
ainda assim me segue
pontualmente necessária
posto que é
tanto a veia calada que grita no peito
quanto o indizível e intransponível discurso da alma

O qual gostaria tanto de sonorizar
Exorcizar em verso.
Mas num cabe -
nem na lingua
nem na linguagem

Só cabe mesmo
podendo até espreguiçar-se
no mais vasto lugar que existe
esse bicho arcaico e primitivo
que se diz coração.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Pé-de-galinha

A velhice me alcançou
em plena década de vinte
Aquelas letras encolheram
Essas pessoas mudaram de nome
(algumas, de soslaio, deixaram de existir...)

As rugas me apanharam
e deixaram hematomas
grandes e roxos
(tal qual da enfermeira preguiçosa
para achar minha veia!)

E o rangido da esquina
de cada parte do meu corpo
desistiu de assobiar e
e, de garganta arranhada,
até ele pede sossego.
(abandonou o rock n´roll)

A idade chegou
sem contar vela alguma
ela sentou cansada,
na cadeira de balanço,
que nem mesmo tenho.

Ela vai,
ela volta
ela vai,
ela volta.

Eu não lembro bem quem está nessa foto.
Eu não lembro bem porque eu queria tanto ir pra essa festa.
Eu não lembro bem quantos anos fiquei naquele trabalho da rua do seu avô.

O cansaço me alcançou,
e ainda é o meio da semana.
Assim, eu sinto,
as centenas de vidas que tive,
sem mesmo ter, apenas endurecendo

Tenho, de repente
setenta e sete anos.
Ninguém me pergunta se quero ler minha mão.
Ninguém me pergunta qual é o meu sonho.
Ninguém me pergunta o que era mesmo que eu achava.

Eu não acho mais...
O óculos que eu acabei de mandar de fazer.
A meia de lã que eu comprei no inverno passado.
O telefone solitário e silencioso.

O silêncio sim me pegou.
Enquanto canso demais
para brincar de esconde-esconde
com cada remédio que tomo
para pregar os olhos.

É setenta e sete anos,
e eu só tive vinte
Sou setenta e sete anos
e só tive vinte.

Tudo porque
ainda é quarta-feira.
E a quarta-feira é feito o burrico do meu avô.
Passa pela janela por horas e carrega o fardo
De toda semana.

Tenho hoje,
as primaveras da primavera primordial primitiva.
Porque sinto o endurecimento da engrenagem em cada
veia.
Porque sinto o cansaço da engrenagem em cada
volta que parecia ir (mas volta).

Deus meu,
o mundo é velho
tão velho

E , hoje, quando ele sussurrar boa-noite ao espelho,
verá sem dúvida alguma:
meu eu,
de olhar assim
longe
e
seco.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Everything is dancing.

Ai os olhos vermelhos
(do coelho!)
Ai  o relógio afiado
do coelho.

Fugir, não me é.
E ainda exige: drink me, drink me
Não se afobe, não precisa:
eu já estou minúscula, eu já estou minúscula.

lá está
aqui está
tudo está
na toca do coelho.
na toca escura do coelho.

                       ( seria possível ver ?)

                       Daqui debaixo, não há futuro.
                       Daqui debaixo, não há em cima.
                       Daqui debaixo, não há memória.

                                                                     
                                       ( seria possível ver ? )

                                        Tudo é possível, menos ver.
                                        Tudo é possível, menos cheirar.
                                        Tudo é possível, menos tocar.
                                        Tudo é possível, menos ouvir.

                                                                           
                                                              ( seria possível ? )
                                                           
                                                               Tudo é possível,
                                                               assim que, desistir de escrever
                                                               e descer,
                                                                                           mais um pouco.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Dos pedaços arrancados no caminho

A terra que tenho
embaixo de cada pé
tem o suor frio
da noite adoentada.

O pé que tenho
embaixo de cada corpo
sustenta 
( por um fio )
o sobrepeso das almas...
que insisto carregar.

As pernas que tenho,
embaixo deste tronco,
não têm folhas,
não têm Sol,
Ou mesmo seiva.
(sequer)

O peito que tenho,
embaixo de minha face,
sustenta, mesmo infiltrado,
(bem nas partes onde perfurado)
cada eu...
que me foi.

O rosto que tenho
embaixo deste Céu,
segura(-se)
em cada eterno instante 
que olha no espelho
gelado e cortante 
do que foi e não é.
( e não será...)

Os olhos que tenho,
bem aqui
olhando para Deus,
aguentam
não mais...

a lágrima
que brota
e esquenta
a terra fria.

a lágrima 
que brota
e emprenha
a terra antes fria

a lágrima
que brota
e me deixa
à terra nada fria

não mais tenho
isso que me era
de novo e também.

Da perpétua transformação.

Não se pode ter para sempre
mas sempre se pode
não ter mais.

e ser Tudo
 e ser Nada



Pois sim...
Não se pode ser feliz para sempre.
mas sempre e sempre se pode
ser feliz.